Tem lugar que aparece tanto no Instagram que a gente acha que vai reconhecê-lo de longe. Com o EMMA aconteceu quase o contrário.
Quando eu e a Isa chegamos à Rua Marechal José Bernardino Bormann nº 1212, no Bigorrilho, foi surpreendente perceber que aquele lugar que estava, de certa forma, inundando o nosso feed com imagens bonitas ficava em um espaço discreto. Com uma entrada mais discreta ainda.
Era quase literalmente uma daquelas portinhas secretas que a gente vê na internet em listas de “lugares da cidade que você precisa conhecer”.
Depois de conseguir estacionar o carro — e descobrir mais tarde que havia um estacionamento ali que nós simplesmente não conseguimos identificar — chegamos à famigerada portinha.
Entramos.
Obras de arte, uma escada e um prédio antigo.
E, conforme a gente subia, começava a ouvir vozes. Primeiro um pouco distantes, depois aquele burburinho gostoso de um lugar preenchido de pessoas. O curioso é que, do lado de fora, nada entregava muito bem o que estava acontecendo lá em cima.
Enquanto subíamos, algumas obras de arte já chamavam a nossa atenção. Eu e a Isa trabalhamos com arte e comunicação, então esse tipo de detalhe naturalmente prende o nosso olhar. Antes mesmo de chegar ao salão, a gente já estava parando para observar o que aparecia pelo caminho.
No final da escada, aquilo que vinha atiçando nossa curiosidade pelo Instagram começou a se materializar.
Era meio da tarde e o EMMA estava cheio.
Tinha gente trabalhando sozinha, gente trabalhando em dupla, pequenos grupos e uma mesa repleta de mulheres no que parecia ser um encontro da tarde. Eu e a Isa escolhemos uma mesa no canto de onde dava para observar praticamente todo o salão.
Não é um espaço enorme. Mas cabe muita coisa ali.
E não estou falando só de gente.
Três grandes janelas iluminavam o ambiente naquela tarde nublada — o que, convenhamos, durante o inverno em Curitiba não chega a ser exatamente uma novidade. Ao mesmo tempo, mesas, cadeiras, livros, revistas, louças, pequenos arranjos e objetos começavam a disputar nossos olhos curiosos.
Nenhuma mesa parecia necessariamente igual à outra. Algumas transparentes, outras de madeira. Cadeiras diferentes entre si. A nossa era uma mesa grande de madeira maciça, marrom, muito bonita e espaçosa. Ao nosso lado, um móvel que lembrava uma cômoda.
Em algum momento eu pensei que o EMMA parecia uma caixa de lembranças com uma tampa lisa.
A caixa estava cheia.
Livros. Revistas. Louças que você não encontra em qualquer cafeteria da cidade. Objetos. Quadros. Móveis diferentes. Pequenos detalhes que pareciam ter sido colocados ali ao longo do tempo, e não simplesmente comprados de uma vez para montar um cenário.
E a tampa?
O teto.
Completamente liso, praticamente um painel em branco, sem pontos de iluminação roubando atenção. A luz vinha de outras partes, de maneira indireta, deixando o protagonismo para tudo aquilo que acontecia abaixo.
E deixando o lugar confortável.
Confortável para ficar.
Como já era meio da tarde — portanto um horário praticamente perfeito para tomar um café e comer aquele “docinho” — fizemos nossos pedidos. Eu fui de bolo de brigadeiro de gorgonzola com frutas vermelhas e suco de morango. A Isa pediu torta basca de chocolate 70% cacau, azeite de oliva, flor de sal e sorbetto de framboesa sobre uma cama de farofa, além de um café com tônica. Comemos aplaudindo.
E eu preciso abrir um parêntese aqui.
O café com tônica estava maravilhoso.
E, quando eu digo maravilhoso, essa informação ganha um pouco mais de peso porque eu definitivamente detesto tônica misturada com praticamente qualquer outra bebida.
Fechado o parêntese.
Enquanto a gente comia, continuava olhando.
Até que a Rapha sentou à nossa mesa.
E aí aconteceu uma coisa curiosa: parecia bastante óbvio que aquela era a pessoa que tinha idealizado tudo aquilo.
Dava para perceber no jeito dela, no look daquele dia, na maneira como falava, nas referências. De alguma forma, Raphaela Zambon e EMMA combinavam.
Então fizemos nossa primeira pergunta:
“Rapha, conta um pouquinho do nome, como nasceu o EMMA e como você criou esse lugar incrível que a gente está aqui hoje.”
E ela começou a resposta de um ponto que, depois, ajudaria a explicar muita coisa:
“Eu nasci dentro de um restaurante, literalmente.”
A história da Rapha com gastronomia vem de família. Ela cresceu em meio a restaurantes e entretenimento e, ainda muito nova, precisou assumir responsabilidades grandes dentro dessa operação. Aos 20 anos, já estava à frente de um restaurante de proporções muito diferentes das que encontramos no EMMA.
E talvez seja justamente aí que a história comece a ficar interessante.
Porque experiência ela tinha.
O que parecia faltar era um espaço para colocar o próprio olhar.
Durante nossa conversa, Rapha falou sobre o quanto gosta de detalhes, da troca com as pessoas, do movimento e de coisas que tenham personalidade. Uma operação muito grande exige escala. E escala nem sempre permite parar e se dedicar em todas essas pequenas coisas.
Em determinado momento, ela resumiu algo importante: quando alguma coisa não é só sua, o seu olhar também encontra limites.
O EMMA nasce, então, depois de uma vontade antiga de fazer o próprio voo.
E foi conversando com a Rapha que aquele lugar começou a fazer ainda mais sentido para nós.
Até então estávamos diante de um espaço bonito, interessante, cheio de referências e absolutamente fotogênico. Depois da conversa, passamos a enxergá-lo quase como uma extensão dela.
Talvez até como uma espécie de alter ego.
Um lugar onde ela conseguiu colocar referências visuais, cores, afetos, experiências, vontades e também uma forma muito particular de pensar hospitalidade.
Curiosamente, antes mesmo de conversarmos com ela, eu e Isa já tínhamos feito uma associação do nome com Emma, romance de Jane Austen.
Mas a história real do nome seguiu outro caminho.
Rapha gosta de nomes femininos e curtos. Em determinado momento, o projeto chegou a flertar com Rosa, uma homenagem familiar, mas conforme o lugar foi tomando forma ela percebeu que aquela personalidade não parecia uma Rosa. Era mais descolada, mais forte, mais colorida.
Tinha cara de EMMA.
Depois veio uma coincidência quase boa demais para não fazer parte dessa história: uma tia-avó que ela conheceu durante a vida inteira por um apelido, “tia Maninha”, na verdade se chamava Ema.
A associação com a personagem de Jane Austen chegou depois. Rapha contou que não conhecia Emma quando escolheu o nome e que, ao entrar em contato posteriormente com a personagem, começou a encontrar semelhanças nessa personalidade feminina mais independente e à frente de seu tempo.
De novo: as coisas pareciam ir se encontrando.
Isso acontece também na maneira como o espaço foi montado.
Parte dos objetos veio de garimpo. Tem coisa de Marketplace, quadro que estava na casa da Rapha, cadeira reformada, peça nova misturada com antiga. Há uma cadeira que, segundo ela, custou R$ 100, foi garimpada e depois pintada de azul.
Nem tudo precisava ser substituído simplesmente porque havia alguma coisa mais nova disponível.
E talvez seja exatamente isso que dê ao EMMA essa sensação de caixa de lembranças.
As coisas não parecem estar ali apenas para combinar.
Elas parecem ter chegado ali por algum motivo.
A mesma lógica de troca aparece na comida e nas bebidas. Rapha contou que algumas ideias vieram de referências afetivas dela, outras da equipe. O cardápio foi sendo construído com espaço para experimentar e mudar.
Com o Ramon, que entrou ainda durante a formação do time e assumiu boa parte das criações de bebidas e cafés, a liberdade foi ainda maior. Segundo ela, praticamente uma carta branca.
E aqui entra outra decisão do EMMA que talvez não seja percebida por quem simplesmente chega, pede alguma coisa e vai embora.
A equipe trabalha em escala 4×3.
A ideia surgiu quando Rapha estava tentando imaginar que tipo de operação queria construir. Ela vinha de uma realidade gastronômica em que jornadas exaustivas acabam sendo normalizadas. Em vez de simplesmente repetir a estrutura que já conhecia, decidiu testar outro caminho.
E alguma coisa interessante aconteceu.
Quando os primeiros profissionais começaram a chegar, passaram também a indicar outras pessoas com quem gostariam de trabalhar.
Nas palavras dela, “eles se escolheram”.
No fim das contas, essa talvez seja uma das coisas que mais expliquem o EMMA.
Tem muita Rapha ali.
Mas não tem só Rapha.
Existe espaço para que as pessoas que fazem parte da operação também coloquem alguma coisa de si.
E isso aparece inclusive no atendimento.
Uma coisa que eu e Isa notamos foi o uniforme da equipe. Não havia uma logomarca enorme estampada dizendo quem trabalhava ali e quem não trabalhava. As roupas listradas conversavam com o ambiente e o nome aparecia de uma maneira muito mais delicada, em colares dourados com as letras do E-M-M-A.
Parece um detalhe.
E é.
Mas esse é justamente um lugar sobre detalhes.
Depois da nossa conversa com a Rapha, levantamos para conhecer outras partes do espaço e chegamos a uma pequena sala de espera, com algumas cadeiras, onde encontramos Ramon.
Ele foi extremamente simpático, conversou com a gente e preparou um café.
Perfeito, por sinal.
E talvez ali tenha ficado ainda mais evidente uma impressão que já estava se formando desde que subimos aquelas escadas:
o EMMA é um espaço para estar.
Não apenas entrar, comer alguma coisa e sair.
Estar.
Conversar.
Trabalhar.
Encontrar alguém.
Passar a tarde.
Fazer fofoca.
Atualizar as coisas da vida.
E nós fizemos exatamente isso.
Quando chegamos, a luz que preenchia o salão vinha principalmente daquelas três janelas enormes.
Em algum momento, sem que a gente percebesse direito quando aconteceu, isso mudou.
As luzes internas começaram a ganhar protagonismo. A claridade que vinha das janelas diminuiu. O lugar mudou de aparência.
E nós percebemos que tínhamos passado ali metade de uma tarde e já estávamos entrando na noite.
Sem perceber as horas sendo contadas no relógio.
Quando finalmente fomos embora, fiquei com uma sensação muito específica.
A de que acertamos.
O Pra Conhecer Melhor ainda está começando e o EMMA foi um dos primeiros lugares que escolhemos visitar com esse novo olhar. E sair dali querendo encontrar outros espaços que nos provoquem aquela mesma sensação foi quase uma confirmação de que estamos procurando as histórias certas.
Porque eu saí pensando nas pessoas que quero levar até lá.
Pessoas que eu amo e com quem consigo me imaginar sentado naquela mesa de madeira, tomando alguma coisa, conversando durante horas, fazendo fofoca e atualizando os acontecimentos da vida.
E talvez esse seja um dos maiores elogios que eu consiga fazer a um lugar.
Existem espaços que a gente conhece e acha bonito.
Existem aqueles em que a gente come bem.
E existem alguns em que a gente imediatamente começa a pensar com quem gostaria de voltar.
O EMMA, para mim, entrou nessa última categoria.
Então, se você também gosta de lugares que se revelam nos detalhes, talvez seja hora de conhecer aquela portinha discreta no Bigorrilho.
Suba as escadas.
Olhe os quadros.
Repare nas cadeiras.
Escolha alguma coisa para comer.
Fique um pouco — ou muito .
E, se a Rafa estiver por ali, tente trocar algumas palavras com ela.
Existe uma chance considerável de que, depois da conversa, tudo ao seu redor faça ainda mais sentido.
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EMMA CAFÉ BISTROT – @emma.cafebistrot
Rua Marechal José Bernardino Bormann, 1212 — Bigorrilho
Quarta a sábado
Das 12h às 23h
Estacionamento próprio no local

Conteudista, comunicador e criador do Pra Conhecer Melhor, projeto que conta histórias, mapeia lugares e aproxima pessoas de experiências culturais, criativas e gastronômicas em Curitiba.













