Tem uma coisa que acontece todo junho em Curitiba e que é um gás no cinema independente.
O Olhar de Cinema — Festival Internacional de Curitiba chega à sua 15ª edição. Quinze anos. De 4 a 13 de junho, mais de 70 filmes entre curtas e longas, distribuídos em alguns dos espaços mais bonitos da cidade: Ópera de Arame, Museu Oscar Niemeyer, Cine Passeio, Cinemateca de Curitiba e Teatro da Vila. Cinema independente acontecendo nos melhores cenários curitibanos possíveis.
O que é o Olhar de Cinema
Pra quem não conhece: o Olhar de Cinema é um dos festivais de cinema independente mais relevantes do Brasil e acontece em Curitiba. Um festival construído na insistência, na curadoria afiada e no compromisso de trazer pro sul do país filmes que a gente talvez não teria acesso de outra forma.
São 15 edições. O festival nasceu em 2012 e foi crescendo no boca a boca e cresceu tanto que a quantidade de cadeiras ocupadas obrigou a próxima edição a ser maior. Hoje tem co-direção artística de Gabriel Borges e direção geral de Antonio Gonçalves Jr.
A identidade visual dessa edição é de Rafael Silveira, um retrato surrealista que transforma rostos em paisagens simbólicas. Já começa bem bonito de se ver, antes mesmo de assistir as obras.
“Esses retratos não são pessoas, são sensações. Foi o caminho perfeito para expressar esse amadurecimento que marca essa edição. O nosso olhar sobre a mesma coisa muda com o tempo”,explicou o artista.
O que vai ter
A programação se divide em várias mostras. Vou tentar não transformar isso numa lista infinita, mas tem muita coisa boa:
Abertura — Ópera de Arame O festival abre com “Yellow Cake”, de Tiago Melo, um filme sobre as consequências de um experimento em que cientistas estrangeiros tentam erradicar o mosquito Aedes aegypti usando urânio. Sim, urânio. Estrelado por Rejane Faria e Tânia Maria. A sessão é na Ópera de Arame, com uma tela especial de mais de 400 polegadas montada pra 1.500 pessoas. Cinema ao ar livre, no meio do parque. Se isso não é motivo pra ir, eu não sei o que é. Uma pena que os ingressos estão esgotados.
Encerramento — Estreia mundial O festival encerra com “Salvação”, do turco Emin Alper, e é estreia mundial. O filme nunca foi exibido em lugar nenhum antes. Curitiba antes de todo mundo.
Competitiva Brasileira Oito longas e oito curtas disputam os prêmios. Tem de tudo: “Adulto/Homem” de Pedro Diógenes, “Reparação” de Marcus Curvelo, “Telúrica, a íntima utopia” de Mariana Lacerda. E nos curtas, nomes como Affonso Uchôa e Everlane Moraes.
Gente que já passou por festivais internacionais e que está produzindo o cinema brasileiro mais urgente que existe agora.
Competitiva Internacional Sete longas de Canadá, Irã, Chile, Argentina, Romênia, Moçambique. Destaque pra “Cartas a Mis Padres Muertos” do chileno Ignacio Agüero e “O Profeta” do moçambicano Ique Langa. Cinema que não chega no circuito comercial e que por isso mesmo precisa de um festival como esse pra existir.
Novos Olhares Sete filmes que apostam em linguagem. Tem “A Paixão Segundo GHB” de Gustavo Vinagre, “O Mez da Gripe” de William Biagioli e “Segunda Pele” de Dea Ferraz. A mostra que geralmente guarda as maiores surpresas.
Mirada Paranaense Sanepar O cinema do Paraná dentro do festival. O longa é “A Holandesinha”, de João Gabriel Kowalski e Luisa Godoi, um documentário sobre Luiza Godoi Acosta, uma jovem com Síndrome de Down que sonha em ser cineasta e realiza seu primeiro curta. Cinema sobre fazer cinema. Sobre inclusão. Sobre existir no audiovisual quando o audiovisual finge que você não existe.
Olhares Clássicos Aqui é onde meu coração acelera. O Cine Passeio vai exibir “Veludo Azul” de David Lynch. “As Harmonias de Werckmeister” de Béla Tarr. “Aqui e em Qualquer Lugar” de Godard. “Corações Desertos” de Donna Deitch. Frederick Wiseman. Lotte Reiniger. Cinema de 1926 a 2002, tudo em tela grande. Bora ver David Lynch no Cine Passeio em Curitiba.
Exibições Especiais”Flora & Airto: O Som Revolucionário” de Jom Tob Azulay sobre o casal que revolucionou a música brasileira no mundo. “Anistia 79” de Anita Leandro que traz a luta pela anistia política. “Rita Moreira: Crônicas, Memórias e Videotape” sobre a documentarista pioneira do cinema feminista brasileiro.
Pequenos Olhares Cinema pra criança. E não é qualquer coisa: tem longa, tem curtas, tem animação. O destaque é “Papaya” de Priscilla Kellen. Levar filho, sobrinho, afilhado. Formar público começa aqui.
O MECI — Mercado do Cinema Independente
De 9 a 11 de junho, dentro do MON, acontece o 2º MECI — Mercado do Cinema Independente. É a primeira iniciativa brasileira dedicada exclusivamente a longas independentes com foco em parcerias e negócios audiovisuais. Traduzindo: é onde diretores, produtores e distribuidores se encontram pra começar a fazer o cinema que a gente ainda vai ver acontecer.
O dinheiro: como um festival desse sobrevive
Uma pauta importante é essa: de onde vem o dinheiro que faz um festival como esse existir?
O Olhar de Cinema é viabilizado por leis de incentivo à cultura. A 15ª edição conta com apoio da Lei Rouanet(mecanismo de renúncia fiscal) e do PROFICE (Programa de Fomento e Incentivo à Cultura do Paraná). Edições anteriores, como a 13ª em 2024, foram realizadas com recursos da Lei Paulo Gustavo, aquela lei emergencial que injetou dinheiro no setor cultural depois da pandemia, aprovada pelo Edital 002/2023 da SEEC Paraná.
Os patrocinadores incluem o Terminal de Contêineres de Paranaguá (master), Fomento Paraná (que firmou patrocínio inédito com o festival), Sanepar, Peróxidos do Brasil e Mili. Apoio institucional da Prefeitura de Curitiba, Fundação Cultural de Curitiba, ICAC, Projeto Paradiso e Uninter.
Vou ser direta: sem lei de incentivo, esse festival não existe. Sem Rouanet, sem Paulo Gustavo, sem PROFICE não tem Ópera de Arame com tela de 400 polegadas. Não tem estreia mundial de filme turco em Curitiba. Não tem David Lynch no Cine Passeio. Não tem jovem com Síndrome de Down contando sua história no MON.
Toda vez que alguém fala que lei de incentivo é “mamata”, lembre-se desse festival. Ingresso a 8 reais. Sessões gratuitas no Teatro da Vila e no CIC. Cinema de verdade, acessível, funcionando. É isso que essas leis financiam.
As edições que vieram antes
Quinze anos não se constroem do dia pra noite. A 13ª edição, em 2024, já tinha mais de 80 produções e bateu recorde de público. A 14ª consolidou o MECI como espaço de mercado. E agora a 15ª chega com sessões esgotadas antes mesmo de começar.
O festival foi crescendo junto com a cidade. Curitiba sempre teve uma relação particular com cinema. A Cinemateca é uma das mais antigas do país, o Cine Passeio virou referência, o MON é cenário que qualquer festival do mundo invejaria. O Olhar de Cinema soube usar tudo isso. E soube trazer gente de fora pra ver.
Como ir
Quando: 4 a 13 de junho de 2026
Onde: Ópera de Arame, MON, Cine Passeio, Cinemateca, Teatro da Vila, CIC
Ingressos: R$ 8 (meia) a R$ 16 — no site oficial
Sessões gratuitas: Teatro da Vila, CIC e algumas no MON
Programação completa: olhardecinema.com.br
Redes:@olhardecinema no Instagram, TikTok e Facebook
Vai. De verdade. Oito reais. Tela grande. Filme que você não vai encontrar em nenhum streaming. E a sensação rara de sair de uma sala escura sabendo mais do que quando entrou. Tudo é repertório.

Editoria parceira e voluntária do Pra Conhecer Melhor, criada para reunir textos de pessoas que também gostam de observar, viver e apresentar a cidade a partir daquilo que desperta interesse, curiosidade e brilho nos olhos.



